N.04 Gio Lourenço
por   Lubanzadyo Mpemba Bula

“Será que vou trabalhar este gesto até à exaustão?” – Gio Lourenço

O artista em destaque da edição 04 é o performer, ator e bailarino Gio Lourenço. Nasceu em Luanda, Angola, e cresceu em Portugal no Bairro do Fim do Mundo. Traz todas as suas vivências para palco, bem como o seu percurso de luta pelo espaço de visibilidade que conseguiu conquistar.

Ator residente do Teatro Griot, Gio Lourenço utiliza as memórias do seu corpo, dos seus movimentos, como mote para as suas criações. “Será que vou trabalhar este gesto até à exaustão?”, é o que se pergunta neste vídeo-retrato realizado por Lubanzadyo Mpemba Bula. A partir do corpo dançante do performer, Lubanzadyo procura entender as várias transformações urbanas, as migrações africanas e as suas dinâmicas transdisciplinares na cidade de Lisboa.

Esta é a edição do mês de Junho, Gio Lourenço por Lubanzadyo Mpemba Bula.

Conversa com Lubanzadyo Mpemba Bula

1) Foi imediata a tua escolha do artista. Sabemos que és amigo do Gio, mas também se nota um grande respeito pelo seu trabalho e uma vontade de o apoiares nesse percurso de luta. 

Sobre a escolha do Gio, penso que foi uma escolha bastante difícil. Já havia da minha parte uma pesquisa desde 2017, de como eu poderia trabalhar com o Gio, tirar o Gio da trama teatral para repassá-lo para uma trama ficcional, mais cinematográfica, que não tinha que depender do não controle do espaço, como na trama teatral. Trazê-lo então para uma trama ficcional cinematográfica, em que há um controle direcionado que é mantido através da câmara, do fazer da fotografia. Quando surge o convite, eu fiz uma lista de pessoas que trabalham com diversas linguagens em movimento, desde o teatro, performance, dança. E uma das pessoas que me chamou muita atenção nesse processo foi o Gio. Me chamou a atenção porque era, como disse, uma pessoa que tinha que conhecer fora do espaço teatral. Foi uma escolha que já vinha com vários questionamentos e só se atendeu nos últimos dias, quando já estava ainda a demorar sobre quem eu tinha que escolher para trabalhar comigo. Então disse “vou ao desafio de trabalhar com Gio”. Mas sim, tenho um imenso respeito pelo trabalho do Gio, e sendo o cinema um espaço fundacional de várias interacções, de várias proximidades, eu chamar o Gio para trabalhar comigo é também um lugar de conhecimento, de partilha de como estar em movimento dentro da arte – que requer uma substituição de padrões. Então essa substituição de padrões se atende, a meu ver, com as pessoas que fazem o meu meio, com as pessoas que estão num diálogo conjunto. É um diálogo que é de construção de narrativas, de narrativas de inclusão de todos nós, sem perpetuar a lógica que já há muito conhecemos, que é a lógica de uns serem os mais vistos e outros a serem convenientemente chamados a atender a um determinado espaço. 

2) O teu vídeo-retrato é talvez o que se possa encaixar mais na videoarte. A tua experiência no Audiovisual iniciou-se precisamente na videoarte. Esse lugar da videoarte é-te intuitivo ou um caminho onde te sentes mais seguro, ou ainda onde encontraste mais oportunidades?

Pelo contrário, eu venho da escola do cinema documental. A minha militância inicial no cinema foi no documentário. Comecei como assistente de fotografia em documentários. Anos depois eu fiz um ano em direção de cinema documental. Então, toda a minha perceptiva inicial de formação de linguagem cinematográfica, está assente num cinema documentário. Obviamente que o videoarte enquanto recurso disponível, em que eu percebo que não há um fim em si de usar a imagem em movimento, mas a imagem ter vários recursos a serem manejados, então acabei por o trabalhar de forma muito frequente com videoarte porque é um lugar de autonomia, me permite procurar criar rupturas com ciclos já postos. Então o videoarte é um espaço de frequência aberta a criar rotura. Tem sido assim esse lugar muito frequente, mas não é uma escolha em si fechada, mas sim uma escolha de aprendizado de poder usar a imagem em movimento.

3) Do que conhecemos do teu trabalho, ele é feito de mensagens subtis, onde a crítica social não se sobrepõe ao poético, mas nunca fica de parte. Por isso há receio em pedirmos-te para nos contares um pouco sobre as tuas intenções da escolha das locações, da moldura, das coreografias. Mas poderás dar algumas pistas sobre o teu trabalho de concepção deste vídeo-retrato?

Há uma política da subjetividade que está associada ao fazer imagem. E isso vem muito da relação que comumente vamos estabelecendo com os espaços, com a nossa forma de estar nos lugares ou como os lugares também vão formando o nosso caráter. Então, quando eu fui fazer esse vídeo, pensei muito na minha volta a Lisboa. E essa volta a Lisboa estava para mim como um ter que lidar com a memória contínua de Lisboa, a memória contínua de uma cidade feita de várias exclusões, uma cidade feita de criar ausência, principalmente a ausência daquelas pessoas que formam o quotidiano da cidade. Então eu procurei desenhar o meu vídeo-retrato focado nisso. Eu ia falar de mobilidade e falar de mobilidade me atravessou muito a ideia de filmar mais uma vez no bairro 6 de Maio. Porquê o 6 de Maio? A memória do Bairro 6 de Maio tinha muito a ver, e a memória daquelas pessoas que formam a mobilidade da cidade de Lisboa, as pessoas que estão numa luta incansável sobre o direito à habitação. As pessoas estão a militar sobre a possibilidade de terem uma habitação. Então esta moldura, especialmente, vai simbolizar essa luta constante, incansável, de ser sujeito de direito a habitação. A moldura está aí como uma cruz que muita gente dentro desse ciclo de precariedades avançadas vai tendo em nome do ter uma casa, de ter uma moradia condigna. Essa é a cruz. E mais do que isso, voltar à ponte 25 de Abril para filmar, é porque aquela ponte também é um espaço de muita mobilidade, um espaço de ausência e de esquecimento de quem a constrói. E onde é que essas pessoas voltaram depois de construir esse espaço. O vídeo é muito uma urgência de repensar a memória. Uma urgência de não ver memórias a entrar em ciclos de esquecimento. Inicialmente eu já tinha uma ideia do que queria filmar, mas o fato do corpo do Gio estar em cena e ter que explorar a perspetiva dos movimentos que ele ia fazer e o próprio diálogo que ele tem também com a necessidade de se mobilizar por essa Lisboa, então aí ele assume a cena. Porque falar do Gio é falar também de territorialidade, é falar de outros corpos que estão em trânsito por essa Lisboa. Falar para outras dinâmicas de memória que formam Lisboa. Então o Gio participa a partir desse momento.

4) A maioria do(a)s realizadore(a)s escolheu filmar ao amanhecer ou entardecer. Porquê esta tua escolha pela luz dura do meio-dia, início da tarde?

Eu penso que filmar no horário que eu decidi filmar veio muito do lugar de como a pauta do distanciamento das desfiliações sociais não são feitas de noite, são feitas ao dia. Então filmar no bairro 6 de Maio, e também naquele horário, era especificamente apontar como é que esses ciclos de vulnerabilidade e a estrutura de esquecimento que estava aí montada, não foi sendo montada simplesmente à noite, foi montada de dia. Então, escolher o dia para filmar foi para mim justamente ter que construir esse lugar de encontro com os acontecimentos que ocorreram naquele espaço.

5) Também, em contraste com os vídeo-retratos que existem até agora, o teu tem um ritmo bem mais lento. Menos planos, narração mais pausada, sons diegéticos que nos dão pistas sobre mais significados. Um pouco como na pergunta três, achas que nos podes desvendar algumas das tuas ideias em relação ao ritmo sem desvendar demasiado?

Eu acredito que preciso aprender com este vídeo. Preciso ter uma relação muito mais extensa. Ainda acho que é pouco tempo para mim para digerir o filme. Mas também estou aprendendo, estou aprendendo a construir imagem, aprendendo com a imagem construída. Então, não tenho muita coisa a desvendar a não ser o lugar pedagógico que eu tenho que ter pela frente com a imagem construída.

6) Acabaste por assinar a fotografia em conjunto com o Afonso Gaudêncio. Na altura explicaste que a tua realização está cada vez mais ligada com a fotografia e é muito difícil para ti não estares com a câmara. Achas que é algo cada vez mais intrínseco, indissociável ao teu trabalho?

Eu estou em constante busca de espaço de aprendizado, como fazer a fotografia em conjunto com a direção, e ainda não consigo. Espero que isso seja um lugar pedagógico para o que eu vou fazer em frente, não me dissociar do ato de estar com a máquina, mesmo dirigindo. Eu acho que essa relação para mim é uma relação permanente de uma educação constante. Poder olhar, poder montar a partir do estar com a máquina. E eu acho também que é um diálogo de não hierarquizar a minha relação com quem está a participar num ato fílmico. Então estamos todos aí em trabalho, estamos todos em comunicação. É essa hierarquia de um diretor que tem que ficar do outro lado e a partir desse lado faz parecer uma banda, uma orquestra, uma parada militar ou uma sala de aula que tem alguém em frente numa perspetiva muito vertical. E não é o lugar que eu quero. Eu quero uma perspectiva de trabalho que seja ela horizontal. E o participar é criar essa horizontalidade de pegar a máquina, poder exercitar. Então, essa relação para mim é indissolúvel. Quando vou trabalhar a fotografia ou quando vou fazer a direção.

7) Que voz queres ter enquanto realizador?

Como realizador eu acho que estou no lugar de quem está a aprender com a realização ou de quem está com a realização para se educar. Eu acho que esse é o lugar que eu mais busco. Então, como cineasta eu procuro não me ver como um depositário de colher ausência ou de viver de ausência sobre o que está a acontecer. Eu quero participar num lugar de poder perspectivar outra forma de inventar subjetividade, outra forma de dialogar o espaço em que eu estou, e dialogar esse espaço de ter cinema como ferramenta política do quotidiano, ou como ferramenta de política das memórias. Quero participar nesse lugar como militante “pró-memória”, e memória essa que seja uma memória de criar um equilíbrio, que seja uma memória de criar equidade. E isso tudo passa por um lugar de poder pensar a arte como proximidade política. A realização não está distante disso e o cinema não está distante disso. Então o meu cinema é um cinema apontado a pensar o meu lugar num espaço de memória, não como um sujeito messiânico, mas como um sujeito que está a aprender a lidar com memória e a questionar ela a todo o tempo. Esse é o lugar que eu busco e acho que esse lugar em si é um lugar de não ser daltónico com o espaço social, mas procurar a construção, a crítica. É isso que eu busco. 

BIOGRAFIAS

Gio Lourenço

artista retratado

Gio Lourenço nasceu em Luanda, Angola, e cresceu em Portugal. Fez o curso de Teatro e Animação na Cercica. Foi bolseiro do centro nacional e cultura para a formação em dança e performance o C.E.M. É ator residente do Teatro Griot e membro da direcção desde a sua formação (2009).

Em 2017 foi selecionado a apresentar a peça “A preta” na bienal de arquitetura de Veneza. Em 2022 prepara um trabalho de performance com a artista visual Michelle Eistrup para uma das mais importantes mostras de arte contemporânea internacional “Documenta” em Kassel, Alemanha.


Lubanzadyo Mpemba Bula

realização

Lubanzadyo Mpemba Bula nascido em Angola é um artista multidisciplinar, que trabalha principalmente com vídeo-arte, fotoperformance, vídeo documental. O seu trabalho centra-se em questões de migração, gentrificação urbana, violência institucional e memória coletiva.

PRODUÇÃO

Jângal Studios

FINANCIAMENTO

Compete 2020 Portugal 2020 fundos europeus

© JANGAL STUDIOS 2022