Um chatbot de inteligência artificial desenvolvido pela Google foi testado com doentes reais antes de consultas urgentes de cuidados primários, num estudo realizado em parceria com o Beth Israel Deaconess Medical Center (BIDMC), nos Estados Unidos.
- O que fazia o chatbot antes da consulta?
- Médicos consideraram os resumos úteis em 75% dos casos avaliados
- Diagnósticos da IA coincidiram com os médicos em 90% dos casos
- Nenhuma conversa foi interrompida, mas houve uma alucinação
- Doentes avaliaram positivamente a conversa, mas mantiveram algumas preocupações
- O estudo começou com 114 participantes
- Então a IA já pode fazer uma consulta médica sozinha?
- O que pode mudar numa consulta no futuro
- Um primeiro teste em ambiente clínico real
O sistema, chamado AMIE, conversava com os doentes antes da consulta, perguntava sobre sintomas e antecedentes médicos, apresentava possíveis diagnósticos para serem discutidos posteriormente com o médico e preparava um resumo para a equipa clínica.
O estudo, publicado na revista científica The Lancet, envolveu 98 pessoas que concluíram tanto a conversa com a IA como a consulta médica. Todas as interações foram acompanhadas em tempo real por médicos, que podiam intervir caso surgisse algum problema de segurança.
Nenhuma das 98 conversas teve de ser interrompida segundo os critérios de segurança definidos para o estudo.
O que fazia o chatbot antes da consulta?
O objetivo do AMIE não era substituir a consulta médica. Os participantes utilizavam o chatbot em casa, até cinco dias antes de uma consulta urgente de cuidados primários relacionada com um único problema de saúde.
Durante a conversa, a IA fazia perguntas semelhantes às que normalmente fazem parte da recolha da história clínica: quais eram os sintomas, quando começaram, se tinham piorado e que outros problemas de saúde poderiam ser relevantes.
No final, o sistema organizava essa informação num resumo que podia ser consultado pelo médico antes de receber o doente.
Na prática, a ideia é utilizar a IA para antecipar parte da recolha de informação e permitir que o profissional chegue à consulta com uma visão mais organizada do problema apresentado.
Médicos consideraram os resumos úteis em 75% dos casos avaliados
Um dos resultados mais interessantes está relacionado com a preparação das consultas. Entre os médicos que analisaram previamente as conversas realizadas pelo AMIE, 33 em 44 consideraram o conteúdo útil para preparar a consulta, o equivalente a 75%.
Em 25 desses 44 casos, os médicos indicaram ainda que a informação fornecida pela IA poderia ter alterado a forma como abordaram os cuidados prestados. Isto não significa necessariamente que o chatbot tenha melhorado o diagnóstico ou o resultado final para o doente.
O estudo avaliou sobretudo se este tipo de sistema pode ser utilizado de forma viável num ambiente clínico real e se a informação recolhida é útil para os profissionais.
Diagnósticos da IA coincidiram com os médicos em 90% dos casos
Segundo a Google, os diagnósticos diferenciais sugeridos pelo AMIE coincidiram com os diagnósticos finais estabelecidos pelos médicos em cerca de 90% dos casos.
Um diagnóstico diferencial não significa que a IA tenha determinado definitivamente qual era a doença. Na medicina, o termo refere-se a uma lista de possíveis explicações para os sintomas do doente que o médico vai avaliando até chegar a uma conclusão.
Por exemplo, perante febre, tosse e dificuldade respiratória, podem existir várias causas possíveis. O diagnóstico final depende não apenas da conversa, mas também do exame físico, de testes laboratoriais, exames de imagem e de outras informações clínicas.
Por isso, a coincidência de 90% deve ser interpretada como uma medida da capacidade do sistema para incluir hipóteses relevantes, e não como uma taxa de 90% de diagnósticos autónomos corretos.
Nenhuma conversa foi interrompida, mas houve uma alucinação
Um ponto importante do estudo é que todas as conversas estavam a ser acompanhadas em tempo real por médicos especializados em medicina interna.
Os supervisores tinham instruções para interromper a interação caso o doente apresentasse sinais de risco, sofrimento emocional, necessidade de cuidados de emergência ou outro problema de segurança.
Nenhuma das 98 conversas atingiu os critérios definidos para essa interrupção. No entanto, isso não significa que o sistema tenha funcionado sem erros. Os médicos identificaram uma alucinação da IA e acrescentaram informação ou esclarecimentos clínicos em cinco interações.
Uma alucinação ocorre quando um sistema de inteligência artificial apresenta informação incorreta ou sem fundamento como se fosse verdadeira.
Este detalhe é particularmente relevante numa aplicação médica, porque mostra por que razão os investigadores continuam a testar estes sistemas com supervisão humana.
Doentes avaliaram positivamente a conversa, mas mantiveram algumas preocupações
Os participantes avaliaram favoravelmente vários aspetos das conversas com o AMIE, incluindo a capacidade do sistema para ouvir, explicar informação e fazê-los sentir-se confortáveis durante a interação.
As atitudes dos participantes em relação à utilização de IA na saúde também melhoraram depois de conversarem com o sistema e permaneceram mais positivas após a consulta médica.
Mas nem todas as preocupações desapareceram. Os investigadores identificaram dúvidas sobretudo relacionadas com a confidencialidade da informação partilhada com a IA e a confiança na honestidade das respostas fornecidas pelo chatbot.
São questões importantes porque uma conversa clínica pode incluir dados particularmente sensíveis sobre a saúde do utilizador.
O estudo começou com 114 participantes
O ensaio decorreu entre abril e novembro de 2025. No total, foram inicialmente recrutados 114 participantes, mas 98 concluíram tanto a interação com o AMIE como a consulta de cuidados primários e fizeram parte da análise principal.
Tratou-se de um estudo prospetivo realizado num único centro médico e sem um grupo de comparação tradicional. Isso significa que os resultados não permitem concluir que usar o chatbot seja melhor do que realizar a consulta sem qualquer apoio de IA.
O número de participantes também é relativamente reduzido para tirar conclusões sobre segurança em grande escala.
Então a IA já pode fazer uma consulta médica sozinha?
Não. O AMIE continua a ser um sistema de investigação e não foi apresentado neste estudo como substituto de médicos ou de uma consulta presencial.
Além disso, o desenho da investigação incluía supervisão médica em todas as interações.
Os próprios investigadores afirmam que são necessários estudos clínicos maiores para perceber como ferramentas deste tipo se comportam quando utilizadas por um número muito superior de pessoas e em diferentes contextos de saúde.
Também será necessário avaliar se os benefícios observados se traduzem em melhores resultados para os doentes e se a utilização da tecnologia reduz efetivamente a carga de trabalho dos profissionais.
O que pode mudar numa consulta no futuro
A aplicação mais interessante deste tipo de tecnologia pode não ser substituir o médico, mas aproveitar melhor o tempo disponível durante a consulta.
Grande parte dos primeiros minutos de uma consulta é utilizada para recolher informação básica: sintomas, duração, medicamentos utilizados, doenças anteriores e outras informações relevantes.
Se parte dessa informação puder ser recolhida e organizada previamente, o médico poderá chegar à consulta já com um resumo do problema. Isso pode permitir que o médico tenha mais tempo para ouvir o doente, tirar dúvidas e explicar o tratamento.
Mas esse cenário depende de vários fatores: precisão das respostas da IA, proteção dos dados pessoais, integração com os sistemas clínicos e mecanismos capazes de impedir que informação incorreta influencie decisões médicas.
Um primeiro teste em ambiente clínico real
O estudo é relevante porque trabalhos anteriores com o AMIE tinham sido realizados sobretudo com casos médicos ou pacientes simulados.
Desta vez, o sistema foi utilizado por pessoas reais antes de consultas reais, embora num ambiente controlado e com médicos a acompanhar todas as conversas. Para a Google, esta foi também a primeira investigação da empresa publicada na edição principal da revista The Lancet.
Os resultados mostram que um chatbot médico pode ajudar a organizar informação antes de uma consulta e que os participantes conseguiram utilizá-lo sem que surgissem situações que obrigassem os supervisores a interromper as conversas.
Mas o próprio estudo deixa igualmente claro o limite dos resultados: 98 doentes são suficientes para testar a viabilidade inicial da ideia, mas não para provar que um chatbot médico é seguro para utilização generalizada sem supervisão humana.
Por enquanto, esta tecnologia faz mais sentido como apoio ao médico, ajudando a organizar informação antes da consulta, e não como substituta da avaliação feita por um profissional de saúde.
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